Quando eu cantava no Restaurante Carreteiro, o conjunto base da casa era formado pelo Edelvito Careca no piano, Toninho Ceguinho na guitarra, Ivo Branco na bateria e eu no baixo e nos vocais. Tínhamos um acerto onde toda gorjeta que entrasse era rachada por quatro no final da noite.
É claro que por ser o cantor e atender os pedidos fazendo a linha de frente eu era o alvo da maioria dos incentivos financeiros tão comum naquela época em restaurantes e boates, mas eu levava numa boa e rachava tudo religiosamente conforme o combinado.
Certa noite, um dos homens mais ricos do Brasil, o fazendeiro e industrial Jaime Canet, então também presidindo o BADEP – Banco de Desenvolvimento do Paraná, estava com um grande grupo de correligionários e amigos comemorando o seu aniversário e a indicação do Governo Federal para ser o futuro Governador do Estado do Paraná.
Um dos amigos dele veio conversar comigo. Como torcedor futebolístico fanático reconheci que se tratava de um dos diretores do meu time, o Coritiba Foot Ball Club.
Ele me pediu para homenagear o Dr. Canet com sua música preferida, Saudades da Professorinha, que é como se tornou conhecida a maravilhosa Saudades do Miraí, do inesquecível Ataulfo Alves, que eu felizmente conhecia por acompanhar o meu pai ao violão e esta era uma das que ele mais gostava de cantar.
Aproveitei para pedir um convite para ver o jogão do dia seguinte entre Coritiba e Corinthians pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa e que já estava com os ingressos esgotados. Com um sorriso ele se afastou dizendo que ia ver o que podia fazer.
Cantei a música e fui muito elogiado pelo homenageado pelo fato de um garoto (na época eu estava com 17 anos de idade) conhecer e cantar de cor uma música tão antiga.
No intervalo seguinte aconteceu uma pequena desavença entre nós quatro integrantes do conjunto da casa, já que um grupo de turistas argentinos que também freqüentavam o restaurante naquela noite havia pedido alguns tangos que foram executados apenas pelo pianista e sendo assim Careca não queria rachar os U$ 50,00 que ganhou dos entusiasmados irmãos portenhos. Do entrevero resultou que dali em diante era cada um por si.
Edelvito finalizou: Quem receba que guarde.
Minha vingança foi malíguina e quase que no ato. Quando voltamos para nossa última pegada o grupo do futuro governador estava se retirando e ele veio me agradecer. Junto dele, o Dr. Vialle colocou no bolso do meu paletó os convites para o jogo que eu havia pedido.
A ironia é que o convite dobrado ao meio parecia muito com um cheque. Para o Ivo e o Toninho eu esclareci uns dias depois do que se tratava, mas Edelvito até hoje não sabe o valor daquela gorjeta que eu recebi de tão abastada e ilustre figura da política paranaense. Para atormentar ainda mais o pobre Careca, na mesma semana eu troquei de motocicleta.
... Conto da série Crônicas de um músico, de Jonas de Castro Deus ...


2 comentários:
Caron, não conheci teu pai, tampouco a música que ele fazia que era, pelo jeito, o ganha-pão dele mas, pelo que ele escreveu e você está publicando, já virei fã de tão ilustre figura. Parabéns pelo desprendimento com que você encara essas reminiscências paternas!
Valeu Jair.
É um jeito de dividir com os amigos e a família. O pai tinha uma presença marcante e cultivava as amizades. Espero que aqui eles encontrem um pouco mais do Big. Uma memória online.
Grande abraço!
Postar um comentário