O bom gosto do Sargento Dutra

Big Jonas e Tatara. Curitiba, década de 70.


No início dos anos 1970 fui contratado para cantar na inauguração de uma boate em Porto Alegre chamada Kharandashe. Eu cantava num programa vespertino de TV aqui em Curitiba que tinha um patrocinador envolvido no projeto lá em POA.

Eles ofereceram um cachê legal. Eu não tive dúvida. Peguei meu fuscão envenenado, carburação dupla, convidei um amigo pra dividir a boleia e pegamos a estrada. Colocaram a gente num bom hotel, numa permuta com o patrocinador.

Eu e o Thadeu ficamos lá uma semana, inclusive fazendo as refeições no hotel.

Mas como tudo que é bom dura pouco, os caras do Kharandashe se desentenderam com o pessoal do hotel. Resultado, nossa bagagem foi apreendida e só seria liberada mediante o pagamento da semana de hospedagem e restaurante.

Como tínhamos nossos compromissos em Curitiba, eu com o Megatons e meu amigo com a oficina mecânica onde era afinador de motores, e o que o hotel tinha segurado nos quartos não passam de umas roupas mequetrefes, malas, barbeadores e titicas, resolvemos vir embora assim mesmo. Só que também não tínhamos recebido a grana pelos shows e já estávamos durangos. Raspando o tacho deu um tanque de gasolina e sobraram centavos.

Saímos de madrugada com a roupa do corpo e o violão que ficava invariavelmente no banco de trás. Como a noite eu sou meio preguiçoso para dirigir, o Tadheu pegou a primeira levada. Na fronteira saindo do Rio Grande do Sul, ele meio distraído passou em alta velocidade pelo posto da Polícia Rodoviária Federal.

Os policiais deram dois disparos para o alto, a fim de nos fazer parar. Obviamente conseguiram.

Depois das explicações de praxe, devidas vistorias dos documentos do carro, do motorista, e tudo mais, contamos ao guarda o que estava acontecendo. Que na verdade éramos músicos, que tínhamos sido meio enrolados no contrato, que provavelmente o empresário pegou a grana e se mandou, que o hotel também foi enrolado, que nossa bagagem...

– HA!!! ENTÃO SÃO MÚSICOS??? E TOCAM O QUE?

Respondi que eu na verdade cantava, mas também me acompanhava ao piano ou violão.

– E CADÊ O VIOLÃO???

­– Está atrás do banco seu guarda.

– ENTÃO PEGUE E VAMOS VER SE É VERDADE!

Não há de ver que o guarda tinha um puto bom gosto musical. Apesar de ser gaúcho, não pediu nenhuma do Teixeirinha. De cara ele mandou: TOCA "NAQUELA MESA" ... depois pediu Chico, Ataulfo, passou a mão numa caixinha de fósforo e no melhor estilo "Ciro Monteiro" acompanhou todas.

Imagine a cena. Dois músicos esfarrapados sentados na escada de entrada do posto da PRF com dois guardas devidamente fardados, às 4 horas da madruga, todos cantando na maior roda de samba da paróquia.

Uma vez convencidos de que éramos gente boa e que estávamos dizendo a verdade, o guarda que comandava o posto resolveu ajudar, primeiro segurando uns viajantes e contando uma estória de que tínhamos sido assaltados e se poderiam contribuir com um pouco de gasolina para podermos chegar até Curitiba.

Uma vez completado o tanque da fusqueta, o último veículo abordado por ele era um Galaxie, placa de Ponta Grossa, PR. Ao volante um médico que fez questão de "doar" 100,00 sei-lá-o-quê, mas era a maior nota da época. Dava para encher o tanque de combustível mais uma vez e sobrava pros sanduíches.

Graças ao Sargento Dutra, continuamos nossa viajem para casa.

Hoje, cada vez que eu ouço a música "Naquela Mesa", ao invés de lembrar da cara do Sérgio Bittencourt (jurado do Flávio Cavalcanti), a imagem que me vem de imediato é a do bigodudo Sargento Dutra, policia rodoviária federal, lotado no posto Capão da Canoa, RS.

... Conto da série Crônicas de um músico, de Jonas de Castro Deus ...

5 comentários:

Michelle Leyser disse...

Nossa... consigo até ouvir seu pai contando essa história e dando risada!
Muito legal Dan.. esse é o jeito de manter o Big vivo. Estou emocionada.

Bj.

Daniel Caron disse...

Valeu Mi. Essa semana que fiquei sem computador aproveitei para mexer nas caixas do pai que estão no escritório. Achei fotos, textos e músicas. Algumas pérolas. Aos poucos vou soltando aqui para a família e os amigos.

beijo grande

Charles Steuck disse...

muito legal... big jonas nessa foto tá a cara do big leminski! abraço!

Roberta Luz Pavanelo disse...

Gostei demais!

Daniel Caron disse...

Valeu. O pai gostava bastante dessa foto. Da história também.