O motoqueiro barbudo é maluco

Toda cidade de tempos em tempos produz figuras folclóricas. Nos idos de 1970, em Curitiba, havia uma criatura onipresente. Em qualquer evento musical, show aéreo, corrida de carro, de bicicleta ou barzinho em que você estivesse, com certeza lá estaria também o Fernando Louco.

Músico nato, grande baterista e percussionista, Fernando Louco foi integrante de grandes conjuntos musicais, com atuação no cenário nacional. Mas infelizmente, ou felizmente como preferia contar, não controlou sua curiosidade por aditivos líquidos, sólidos e gasosos.

Mas era um sujeito responsável. Por volta de 1976, Fernando Louco juntou as economias pra abrir um barzinho. Claro que rolava som da melhor qualidade, mas decoração, como o proprietário, era bastante peculiar.

Bem no fundo do bar ficava um enorme ataúde de madeira, que volta e meia criava alguma confusão. Nele eram colocados para descansar os bebuns que estavam de porre. O rebuliço ocorria quando o sujeito acordava, levantando depois de um sono profundo naquele caixão.

Outra curiosidade do bar era o cardápio, onde constavam coisas como: fimose de macaco a milaneza, remela de crocodilo no palito e outras barbaridades. Mas dá para entender, pelo jeitão do Fernando.

Quando ele encontrava algum conhecido na rua, pobre do sujeito. Fazia o maior escândalo, gritando a pleno pulmões pelo nome nome do amigo acompanhado dos mais estapafúrdios sobrenomes. Jonas Karloff, Frankstein, Kennedy, Crushoff e outros.

A gente ia ficando sem jeito, aí ele de aproximava, rindo muito, e nos abraçava e beijava. Era um sujeito legal, mas às vezes podia bastante se tornar bastante inconveniente.

Numa tarde daquele outono, no cruzamento das Ruas XV de Novembro com Dr. Muricy, um dos mais movimentados da cidade, eu aguardava a abertura do semáforo na minha motocicleta quando ouvi alguém aos berros

– Socorro ! Socorro ! Polícia ! Pega ! O barbudo da moto ! Pega ! Tarado !

O desgraçado gritava apontando para mim e vindo em minha direção. Foi se criando um clima de animosidade entre os transeuntes e até um guarda de trânsito foi se aproximando de mim com cara desconfiada. E o Fernando gritando da esquina de cima.

- Pega ! Taradoooo ! Pega ! o barbudo da motooooo !

Desceu a Dr. Muricy e, ao chegar do meu lado, aquela mesma ladainha de me abraçar, me beijar o rosto e morrer de rir. Só que desta vez não compartilhei da sua alegria contagiante. Fiquei realmente muito bravo. O guarda de trânsito também.

Alguns dias depois, Fernando Louco e eu nos encontramos num churrasco na casa de um músico que estava de aniversário. Quando me despedi para ir embora, o Fernando me pediu uma carona. Era uma daquelas noites frias de outono e eu estava com minha Suzuki 750cc. Disse que aquela camiseta regata do Flamengo era pouco agasalho para ir de moto comigo, mas ele respondeu que estava turbinado e não haveria problema.

Logo que arranquei senti os dois braços do Fernando agarrados ao seu tronco como se fosse um filhote de bicho preguiça. A cena deve ter sido hilária. Um motoqueiro a todo gás, tendo por passageiro uma cabeça grudada nas costas, dois braços agarrados ao seu tronco e as duas perninhas como flâmulas de bandeira ao vento. Curei o porre do figura fazendo as curvas mais deitadas e rápidas que minha parca habilidade permitia.

Pelos vinte e tantos anos seguintes, toda vez que o encontro é o mesmo rebuliço, mas agora um pouco diferente:

- Socorrooo! Polícia! Pega! O motoqueiro barbudo é malucooo!!!


... Conto da série Crônicas de um músico, de Jonas de Castro Deus ...

2 comentários:

"leitor" disse...

Carinha, se "seu Jonas" produzia música como escrevia, que músico sensacional ele era! As crônicas dele são ótimas!

Daniel Caron disse...

Ainda vou fazer um clip para o You Tube da música "Procura-se uma Amiga", que o pai fez para a mãe.

Quem quiser conferir a voz do Big Jonas pode ouvi-lo na trilha sonora do video-documentário sobre o nascimento da minha filhota Luiza:

http://www.youtube.com/watch?v=68OEBYox-Zs

Grande abraço!