Nos tempos em que eu comecei a cantar no Restaurante Carreteiro, aos 17 anos, recém ingresso na universidade, o lugar era um dos mais concorridos de Curitiba. Todas as noites havia cinco ou seis ônibus de excursão vindos das mais diferentes partes do Brasil e países vizinhos.
O cast da casa era formado por mais de 20 artistas, entre músicos, cantores, bailarinos, equilibristas e mágicos. O conjunto base da casa, já mencionado aqui, era formado pelo Edelvito Careca no piano, Toninho Ceguinho na guitarra, Saca no baixo, Ivo Branco na bateria. Eu era o crooner e apresentador de todas as atrações da casa.
No palco, nos revezávamos com Militão e o seu violão; Edgardo, cantor de tangos e boleros; Juquinha Batucada; Maé e seus batuqueiros e passistas; Marly, a cantora balanço e o trio Sereno de Prata (no melhor estilo Irakitan), formado pôr três irmãos descendentes de alemães e extremamente afinados.
Como cada atração atuava perto de 50 minutos, nós do conjunto base costumávamos passar o tempo num posto de combustível que havia na esquina próxima ao restaurante, disputando fichas naquelas pequenas mesas de sinuca, tão presentes nos bares e botecos de antigamente.
Certa vez, na nossa primeira parada, o Edelvito, que tinha uma mente altamente privilegiada para aplicar traquinagens nos amigos, parou de jogar de repente, foi ao telefone e ligou para o restaurante, obviamente disfarçando a voz:
- Alô, é do Carreteiro? Pôr gentileza... Aqui é do Clube Curitibano (um dos mais chiques e concorridos clubes sociais da cidade) ... Estamos numa reunião de Diretoria e gostaríamos de falar com o Herbert do “Trio Sereno”, disse ele quase que gritando para poder ser entendido pelo atendente em meio ao ruído típico das casas de show.
- Pronto, aqui é o Herbert falando... pois não!!! (o Herbert era o irmão mais moço e extrovertido do trio). O Edelvito continuou... É do trio Sereno? Bom é o seguinte: Nós vamos ter uma festividade aqui no Clube na semana que vem e nos foi indicado por um sócio o trio de vocês para fazerem um show no decorrer do evento. Coisa de pouco tempo... hum... no máximo trinta minutos, só que tem um porém, nos pagamos no máximo CR$ 500.000,00 (sei lá quanto valia a moeda na época, mas me lembro que eu era um dos melhores cachês da casa e faturava CR$ 25.000,00 por noite). E continuou... Vai lá conversar com teus irmãos que daqui uma hora eu te ligo de novo para acertarmos os detalhes.
Quando retornamos ao restaurante para nossa segunda pegada, estava o maior auê entre os três eufóricos irmãos: - Com essa grana vai dar para renovarmos nossos uniformes, vamos comprar dois violões novos, quem sabe um novo atabaque, ou talvez ...
O diabólico Edelvito esperou dois intervalos para ligar de novo para o restaurante, só que agora, mandou chamar o Egon, que era o mais velho e com certeza o mais bravo dos três:
- Alô, foi com você que eu falei ainda há pouco?
- Não senhor, respondeu, foi com meu irmão, mas eu estou ao par e o senhor pode falar comigo mesmo.
- Bom é o seguinte, falou o maquiavélico Careca, de nossa parte tudo certo quanto ao repertório e o tempo de show que ele nos propôs, agora quanto ao cachê, consideramos que CR$ 1.500.000,00 está um pouco caro demais...
Ficou falando sozinho, porque quando ele falou a quantia, o Egon (segundo aqueles que presenciaram a cena) largou o telefone, pegou pelo colarinho o irmão que ouvia com os olhos brilhantes do outro lado do balcão, puxou por cima da divisória como se fosse um saco de batatas e soltou a mão na cara do guri. Estava furioso.
- Como é que você dá um “cachorro” desses pra cima dos teus irmãos mais velhos???
... Conto da série Crônicas de um músico, de Jonas de Castro Deus ...
O pau quebrou no Carreteiro
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